Oscar Schmidt


Os melhores (e piores) momentos de uma vida inteira

Oscar não precisa ser ninguém além do quem realmente é.
É um cara grande, por dentro e por fora, que nunca se deslumbrou pela fama e cumpriu o seu papel de atleta na íntegra, como manda o figurino.
Seus 2,05 metros de altura e seu tênis com modestos 50 centímetros de comprimento são apenas representações do gigante que se formou ao longo dos seus 59 anos.
No entanto, outras características aparentes fazem dele muito mais do que o maior jogador de basquete do mundo. Oscar é vencedor, em todos os sentidos. A cicatriz na cabeça, de orelha a orelha, pouco aparente, é a prova da luta que travou contra o câncer, por duas vezes.
Ali, onde rolou a entrevista, na sala de troféus que mais parece o coração da casa em que mora há 20 anos em Alphaville, Oscar deixou de lado os clichês do basquete para falar de valores que não podem ser contabilizados.
Presentes, camisas, objetos pessoais, bolas (que hoje são meramente decorativas) e incontáveis prêmios se misturam à cesta de estimação, construída pelo seu pai, e ao capacete da radioterapia, que unida a sua fé inabalável, literalmente, salvou a sua vida.
Não é para menos. Até pelo Papa Francisco o cara foi abençoado durante a vinda do pontífice ao Brasil.
A carreira de palestrante, iniciada com uma reles apresentação no power point, feita por ele mesmo, quase não vai para a frente. Mas foi. E rendeu ao ex-atleta uma boa grana e alguns prêmios Top Of Mind que ficam em destaque na sala, mas que não são menos importantes do que as medalhas conquistadas na carreira de atleta. Corinthiano roxo, Oscar contabiliza seis livros escritos sobre ele, sendo que um foi uma autobiografia.
Patriarca de uma família na qual se derrete todo só de pensar, comemora 42 anos de casamento com Maria Cristina, com quem está desde molecote. Por ela, Oscar negou convites internacionais e, anos depois, encheu o nosso coração de orgulho com tantas conquistas pela Seleção Brasileira.
Aliás, vale contar aqui que ele contabilizou 49.737 pontos oficiais em quadra. E pode somar mais quatro aí, quando, recentemente, jogou 11 minutos no Jogo das Celebridades da NBA, em fevereiro deste ano.
A conversa rendeu. Até mesmo porque muita água rolou debaixo dessa ponte.
Do início da carreira ao ingresso no Hall da fama, da família perfeita ao sonho de ser presidente da república, o que o fez tentar o ingresso na carreira política. “A política é podre. Ainda bem que eu perdi a eleição”, revela.
Muito mais do que fazer uma entrevista, saímos de lá com uma gana enorme de encarar de frente as dificuldades da vida.
Mão Santa, Oscar Schmidt!
Valeu, cara. Em meio as centenas de medalhas, Oscar mostra orgulhoso os prêmios recebidos como palestrante. Foi indicado cinco vezes ao prêmio Top Of Mind.

Como foi este processo? Você acordou e resolver ser palestrante? 

Não foi assim como você está pensando (risos). Acabou o basquete para mim a carreira e eu não tinha preparado nada para isso. No fim da minha carreira algumas empresas já me convidavam para conversar com os funcionários. Resolvi arriscar. Entrei no power point e montei um esboço de palestra com uns 24 slides. Eu não sabia usar nada disso. No início foi um desastre e quase abandonei o barco porque eu morria de vergonha de falar em público. Mas optei por ir melhorando a cada dia. Teve um dia que acabei a palestra e fui ao banheiro; e ouço ouvi pessoas comentando que a minha história era muito interessante, mas não tinha conteúdo. Eu entendi aquela mensagem. O conteúdo é a forma de fazer as pessoas se identificarem com aquela história. Contratei um gênio deste maiomeio, o João Cordeiro, e montamos três palestras diferentes com a mesma história. Eu só tenho uma história. Não posso inventar. O meu mundo decolou e vivo disso hoje. Se eu soubesse eu não tinha jogado basquete (risos).

Você só atende empresa fera, certo? Google, Coca Cola. Você que vai até estas empresas ou elas que te procuram?
Não. Atendo qualquer uma empresa que pague o meu preço. As empresas que me procuram. Já fiz palestra com oito mil pessoas, que foi a minha primeira palestra. Foi na Amway, que era patrocinadora do time que eu jogava, o Corinthians. Falei durante uns 15 minutos e quando eu percebi eestava o lugar inteiro gritando: “Vamos ser campeão”.

Você sempre teve este tino para a comunicação?
Fazer palestra é muito diferente de tudo. Você precisa ter algo organizado que atenda as pessoas que estão ali te assistindo. Não é simples fazer. Imagine subir num palco com mais de mil pessoas olhando para você. O conteúdo é sempre a minha carreira, mas contada de formas bastante agradáveis.



Como está o seu ritmo de vida profissional
Intenso. Hoje eu tenho mais compromissos do que quando eu jogava. Viajo muito.

Você já foi candidato a senador.
Hoje deve dar Graças a Deus de não ter entrado para a vida política.
Eu queria ser presidente da república. Fiquei 13 anos na Itália pensando em como ser presidente do Brasil. Mas a política é podre. Ainda bem que eu perdi a eleição. Joguei cinco anos de basquete ainda depois desta eleição. O único cara que me deu chance, na época, foi o (mer...) do Maluf. Fui candidato numa coligação com seis partidos e tive mais votos que o próprio Maluf. Tive a quinta votação da história; quase seis milhões de votos. E pensar que todo este povo saiu de casa para votar em mim. Me arrependo de ter sido candidato, mas tenho um orgulho danado de ter tido todos esses votos. Vocês não sabem a quantidade de propostas que recusei na eleição sucessiva. Muito dinheiro. Este jogo eu não quis jogar.

Você sempre teve este tino para a comunicação?
Fazer palestra é muito diferente de tudo. Você precisa ter algo organizado que atenda as pessoas que estão ali te assistindo. Não é simples fazer. Imagine subir num palco com mais de mil pessoas olhando para você. O conteúdo é sempre a minha carreira, mas contada de formas bastante agradáveis.

Você contabilizou 49.737 pontos no basquete, certo? Foram 32 anos do esporte. Uma vida, né?! Como começou esta paixão?
Opa! Coloque na conta Mmais quatro pontos oficiais que fiz recentemente. Bom, primeiro que eu não gostava de basquete. Na minha família todo mundo jogou vôlei e eu gostava de futebol, como todo bom brasileiro; aí, em Brasília, o meu professor de educação física falou para mim que era técnico de basquete da vizinhança falou para mim. “Você podia ir lá”;, ele , que não era bobo nem nada. , disse. Eu era alto pra caramba e tinha 13 anos. Bom, eu fui! Ele dava uns exercícios estranhos e, na época, difíceis para mim. “Comece certo que um dia você vai fazer muitas cestas”, falou Laurindo Miura, meu treinador na época. Eu me apaixonei pelo basquete, e veio o sonho de jogar na seleção brasileira e isso aconteceu rápido. Com 15 anos eu estava jogando na seleção juvenil e com 16 anos joguei duas partidas na seleção adulta.

Nossa, mas foi muito rápido. Em apenas dois anos você estava na seleção.
Sim! Vocês estão falando com um cara que treinou muito. E que teve incentivo dos pais. Aí eu vim jogar no Palmeiras e foi um sacrifício fazer a minha mãe deixar eu vir sozinho, aos 16 anos, morar numa república.

Fale um pouco dos seus pais em meio a este processo.
Meu pai era militar, filho de alemão. A educação, em casa, foi “braba”. Imagine só se o meu pai soubesse que eu não estava recebendo dinheiro? Fiquei seis meses sem receber e se eu falasse contasse isso a ele a, minha carreira iria acabar. Ele viria me buscar. Apesar de ganhar pouco um meu pai sempre me colocou em boas escolas particulares. Ele fFez muito sacrifício pela gente.

Nessa época não te despertou o desejo de jogar fora do Brasil, o que é muito comum com jovens atletas nesta idade.
Despertou, lógico. O Michigan State, equipe do Magic Johnson, veio jogar no Brasil. O cara ficou doido comigo e me ofereceu dinheiro. Eu não quis sabe por que? Porque eu já tinha o amor da minha vida, que era a minha namorada. Ou eu iria com ela ou eu não iria. Estamos há 42 anos juntos. Somos uma dupla infernal. Maria Cristina merece o dobro do sucesso que a vida me proporcionou, pois fez muitos sacrifícios por mim. Quando eu fui para a Itália, era final de setembro. Ela estava no quinto ano de psicologia. Eu pedi para que ficasse ficar e terminasse a faculdade. Ela não se formou e foi comigo. Não era só uma ajuda moral. Era efetiva. Ela passava bola para mim nos treinos. Participou de tudo.

As suas camisas serem número 14 tem a ver com a Maria Cristina?
Sim. Começamos a namorar no dia 14 de janeiro.

Você também recusou a NBA, certo?
Sim. Porque era proibido jogar na NBA e na Seleção Brasileira, nas Olimpíadas. Me drafitaram em 1984, ou seja, eles me queriam muito. Fui lá, treinei uma semana, fiz cinco jogos com o New Jersey Nets e os caras ficaram loucos ao me verem em quadra. Não aceitei porque a minha prioridade era a Seleção Brasileira. Três anos depois nós mudamos as regras do basquete; ganhamos o Panamericano nos Estados Unidos.

E o basquete de hoje? O que você acha dele?
Hoje, graças a minha geração, todos os países têm jogadores na NBA. No Brasil, como jogador, destaco o Anderson Varejão. Acho que muitos atletas não sabem ganhar. Tem coisas que o técnico não precisa dizer para você. É sua obrigação saber. Já o torcedor de hoje está mal-acostumado. Todas as informações chegam até ele. Quando eu jogava na Itália, ninguém sabia que eu estava lá. Aliás, muita gente não sabe até hoje. Foram meus melhores anos na Europa. Fique 13 anos jogando lá.

Já que estamos falando da velocidade da informação, conte pra gente. Você é internauta?
Sou avesso a mídia social. Para ser bem sincero, acho uma porcaria.

E mesmo assim você continua em alta na mídia.
Conte sobre o Hall da Fama.
O Hall da Fama dos Estados Unidos é a premiação mais importante que existe no basquete. Não existe nada maior do que isso. Nenhum prêmio chega aos pés do hall da fama. É sonho de qualquer jogador de basquete. Para você entrar, precisa ter parado de jogar há cinco anos. E já faziam dez anos que eu tinha parado de jogar. Um dia, estou nos Estados Unidos e toca o telefone. Era o comunicado de que eu havia entrado no Hall da Fama. Parei o carro para não bater de tanta emoção. Entrei por unanimidade.

E você estava no meio do tratamento do câncer? Ou já estava curado.
Neste mesmo ano eu tive o segundo tumor. Aliás, tragédia vende. Nunca tinha visto tantos jornalistas numa coletiva de imprensa. Lotou de jornalista do lado de fora da minha casa. Fiz uma coletiva e esclareci. Eu tinha acabado de operar e vasou a informação.

Você está curado?
Meu médico, Doutor Olavo, me chamou e disse que minha ressonância nunca esteve tão boa. Mas não foi somente o meu Deus, que é o meu médico, que me curou. Faço quimioterapia cinco dias por mês. Fiz radioterapia por um mês seguido. Está vendo isso aqui? (Ele mostra o capacete da radioterapia). O primeiro tumor era grau dois e tinha oito centímetros; o segundo era menor, mas era maligno. O tumor, quando volta, volta perverso.
Então, eu já abri e cabeça duas vezes, de orelha a orelha.

O que mais você faz pela sua saúde?
Fiz um tratamento na qual eles tiram meu sangue, trabalham ele e devolvem-no na minha espinha. Sem anestesia. Quando você está doente não sente dor. Fui em centros espíritas, fui no João de Deus. Eu faço tudo o que é necessário para não me arrepender, mas com o meu médico a par de tudo. Sou católico e rezo todos os dias. Gosto de ir em igrejas vazias, fora do horário da missa. É a melhor forma de se conectar com o Homem lá em cima.

E você fala disso na palestra?
Muito rapidamente. Quando eu falo disso as pessoas ficam tristes. Eu tenho que falar porque fez parte da minha história. Aliás, neste momento, estou fazendo mais uma reciclagem com a minha palestra. Mudamos o visual dela e mudamos de lugar algumas histórias. Coloquei no final da palestra uma história linda, que vocês ainda não conhecem.


E quando está de folga? O que curte fazer?
Gosto de ficar em casa e assistir documentários, pelo menos aprendo alguma coisa assistindo televisão. Adoro ir ao cinema. Vou, pelo menos, uma vez por semana, quando dá, com minha esposa e meus filhos, quando estão por aqui. Nossa programação é muito simples, de comuns mortais. Acordo, vou à padaria, enfim...

Está há quanto tempo aqui em Alphaville?
Estou nesta casa há 20 anos.

Você tem esperança de ver algum jogador bater o seu recorde?
Lógico. Sem dúvida nenhuma.
Para fazer isso não pense que é fácil. São muitos anos jogando bem. Porque, até agora, ninguém treinou o que eu treinei. Anos e anos a mesma coisa.
Todo dia e a vida toda.

Fale da sua relação com seus filhos.
Tenho dois filhos lindos. Tudo o que você pede à Deus para ter, eu tenho. Sabe, não faltou nada para eu fazer nesta vida. Talvez ganhar uma coisa ou outra. O resumo é muito positivo... mais do que sonhei.

Qual o seu papel para o esporte brasileiro?
O meu papel é simples. Quem fala mal de mim, vai continuar falando. Não vou mudar uma vírgula por causa dos outros. Faço tudo de acordo com a minha cabeça. Falei “não” para a NBA, quer algo melhor do que essa? Ou pior do que essa? Vou aonde eu decidir. O que eu fazia pouco antigamente, hoje eu faço muito. Durante a carreira você fica pensando muito no depois. Você não faz o que deveria realmente fazer. Hoje, eu viajo muito. Estou indo para os Estados Unidos para ficar um mês. Isso é qualidade de vida. Preciso desfrutar disso. Caixão não tem cofre. Não levamos nada dessa vida conosco. Passei a pensar assim depois da doença. Antes eu só pensava em investir, em comprar bens. Até pela questão da responsabilidade também. Eu não sabia como ia ser depois que parasse de jogar.
Hoje eu ganho mais dinheiro com palestra do que jogando basquete.
Olhe que coisa de louco isso.


 

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